Nos rankings de livros mais vendidos do Brasil, é cada vez mais comum ver mais de um livro de colorir voltado para adultos. E não estamos falando de lançamentos infantis, mas de publicações simples, com traços minimalistas e mensagens suaves de autocuidado.

Esse fenômeno, liderado por títulos como os da americana Bobbie Goods, parece inofensivo. E até faz sentido: em uma sociedade marcada pela exaustão mental, pelo excesso de telas e pela pressão constante por produtividade, a ideia de sentar, colorir e desacelerar soa como um gesto de resistência.

Mas será que é mesmo?

Publicidade

Leia Também:

A sociedade do cansaço não quer mais pensar?

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han já alertava em seu livro “A Sociedade do Cansaço” sobre o esgotamento emocional generalizado do sujeito contemporâneo. Somos bombardeados por estímulos, metas, notificações e expectativas inalcançáveis. Nessa paisagem, o colorir simples, repetitivo, sem exigência cognitiva, surge como uma válvula de escape.

Só que há um detalhe incômodo nisso tudo: o escapismo virou bestseller, e a literatura, o pensamento crítico, a complexidade, a arte provocadora.. tudo isso parece estar sendo deixado de lado.

O que diz sobre nós o fato de que, no mesmo país em que autores nacionais mal conseguem vender seus livros, milhares de adultos compram livros de colorir semana após semana?

Quando o alívio vira anestesia

Colorir pode ser relaxante. Pode ser terapêutico. Mas quando essa prática ocupa o espaço da leitura, do debate e da imaginação ativa, estamos diante de uma sociedade que não quer mais pensar. Que foge até do esforço da interpretação. Que troca narrativas complexas por imagens suaves em tons pastel.

Esse movimento também revela uma grande crise do espírito: a busca desesperada por conforto virou mais importante que a busca por sentido.

Não se trata de demonizar os livros de colorir. Todos precisamos de momentos de respiro. Mas talvez o alerta esteja no desequilíbrio. Quando os livros mais vendidos do país são silenciosos, apaziguadores e visualmente agradáveis, o que isso diz sobre o que estamos deixando de lado?

E se, em vez de só preencher espaços com lápis de cor, a gente voltasse a preencher a mente com ideias que incomodam e transformam?